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Gestão de contratos públicos: como executar sem travar o seu pagamento

Gestão de contratos públicos na prática: empenho, fiscal, nota, certidões, reajuste e o que fazer se o órgão atrasar. Passo a passo pra não perder dinheiro

Geraldo JuniorGeraldo Junior9 min de leitura
Gestão de contratos públicos: como executar sem travar o seu pagamento
Neste artigo
  1. Por que a gestão do contrato vale mais que a vitória
  2. Passo 1: não entregue nada antes do empenho
  3. Passo 2: monte o kit de início do contrato
  4. Passo 3: a rotina da execução
  5. Passo 4: nota fiscal, atesto e certidões todo mês
  6. Passo 5: reajuste, repactuação e reequilíbrio
  7. O que fazer quando o órgão atrasa
  8. Erros comuns na gestão de contratos públicos

Gestão de contratos públicos é tudo o que você faz depois de ganhar: esperar o empenho, entregar no prazo, emitir a nota do jeito certo, manter as certidões em dia e cobrar quando atrasa. Muita gente acha que o trabalho acaba quando o pregoeiro declara o vencedor. É o contrário. É na execução que o dinheiro entra, ou trava.

Eu vendo pro governo desde 2014. Meu primeiro contrato foi aluguel de carros pro Corpo de Bombeiros de Alagoas, e ele foi renovado por 10 anos. Contrato que dura isso não se sustenta com sorte. Se sustenta com rotina. Então anota aí.

Por que a gestão do contrato vale mais que a vitória

A dispensa é compra pontual: você entrega, recebe e acabou. O contrato de verdade vem do pregão eletrônico, e ele pode durar de 12 meses até 10 anos com as renovações.

A previsibilidade de receita, pra mim, é o filé da licitação.

Só que esse filé tem dono cuidadoso. O mesmo contrato que te dá receita todo mês pode virar dor de cabeça se você entregar sem documento, emitir nota errada ou deixar uma certidão vencer. Os erros que eu vou te mostrar aqui não são de gente burra. São de gente que não sabia.

Passo 1: não entregue nada antes do empenho

Ganhou? Ainda não entregue. Espere o empenho (no caso de produto) ou a autorização de fornecimento (no caso de serviço). O empenho é o documento que mostra que o dinheiro do seu pagamento já está separado e reservado. E os prazos do contrato só começam a contar a partir dele, não da assinatura.

Um aluno de manutenção predial ganhou um pregão de R$ 97 mil pra pintar um prédio e me perguntou se já podia começar a obra. A resposta foi não: espera o empenho ou a autorização formal. Começar antes, no informal, tira a sua garantia de receber.

Quem toma calote, quase sempre, entregou só com um "pode mandar" no WhatsApp. Em município pequeno isso acontece muito. Depois não tem como cobrar. Se quiser entender o caminho do dinheiro inteiro, eu explico no artigo sobre o que é o empenho e como o governo paga.

Passo 2: monte o kit de início do contrato

Antes da primeira entrega, identifique três pessoas:

  • Gestor do contrato: o servidor que responde pelo contrato, geralmente o chefe daquela repartição. Muitas vezes o nome e a matrícula dele já vêm no edital.
  • Fiscal do contrato: o servidor que confere e atesta que você entregou como o edital mandou. Sem a assinatura dele, você não recebe. Esse é o cara mais importante do seu mês.
  • Preposto: a pessoa que representa a sua empresa junto ao órgão. Ela não precisa ter carteira assinada com você. Basta um documento formal por e-mail com o nome completo, o CPF e o RG dela.

Isso resolve um problema que trava muita gente: você mora num estado e ganhou contrato em outro. O preposto é quem vai lá, se apresenta e resolve.

Depois disso, eu sempre faço uma reunião de alinhamento no começo. Vou até o órgão pra entender os prazos, pra que eles querem aquele produto ou serviço e como a rotina funciona lá dentro. Cada órgão é administrado de um jeito, igual empresa.

A garantia do contrato

Contrato de valor maior pode exigir garantia. As formas mais comuns que eu vejo: um depósito de 5% do valor do contrato ou um seguro-garantia feito com seguradora. Num contrato de R$ 100 mil por ano, a garantia fica em torno de R$ 5 mil. Ela existe pra o órgão não ficar desabastecido se o fornecedor sumir. O edital diz se ela é exigida e em que percentual, então confira lá antes de dar o lance.

Olha como eu explico a rotina do mês e a cobrança numa das aulas:

A rotina mensal do contrato e o passo a passo da cobrança

Passo 3: a rotina da execução

Execução e fiscalização andam juntas. Você entrega, o fiscal confere. Pra não tomar penalidade e receber em dia, a minha rotina tem quatro hábitos:

  1. Confira cada entrega. Fornecedor às vezes manda diferente do combinado. Já teve aluno que recebeu papel toalha com 720 folhas em vez de mil. Confira antes de repassar pro órgão.
  2. Registre toda ocorrência por e-mail. Muito servidor ocupa cargo comissionado e muda de órgão. Combinado verbal vai embora junto com ele.
  3. Monitore os prazos. Precisa de mais tempo? Peça a prorrogação por escrito antes de o prazo vencer. Eu faço isso direto e raramente é negado.
  4. Guarde evidências. Foto da entrega, canhoto assinado, e-mail. Eu monto uma pasta pra cada contrato. A gente nunca sabe quando vai precisar.

Quando for registrar algo que foi falado, seja simples: "vou registrar por e-mail só pra ficar no histórico". O servidor entende. Não é pra incriminar ninguém. É pra se proteger.

E se o produto sair de linha?

Acontece. O Reinaldo, meu aluno de Natal, vendeu uma poltrona de massagem pra uma penitenciária e o fabricante descontinuou o modelo. Ele avisou por e-mail, ofereceu uma poltrona equivalente de outro fabricante, teve o aceite por escrito e entregou. Contrato mantido. Qualquer alteração que não está no edital precisa da concordância das duas partes, e por escrito.

Passo 4: nota fiscal, atesto e certidões todo mês

Na minha empresa, todo dia primeiro é dia de emitir nota. Funciona assim:

  • Contrato de valor fixo: a nota já está aprovada, é emitir e mandar.
  • Contrato de valor variável (depende de medição): eu preciso do atesto do fiscal antes. O prazo pra ele atestar está no contrato, geralmente uns cinco dias úteis.
  • Contrato com mão de obra dedicada (funcionário seu alocado no órgão, como um motorista): você manda junto a prova de que pagou salário, FGTS e INSS.

Depois disso sai a autorização de faturamento, você emite a nota e aí começa a contar o prazo de pagamento, que é de até 30 dias pela lei.

Dois cuidados que eu vejo gente errar:

  • Nunca emita nota sem o atesto. Se o fiscal não aprovar, você cancela a nota, gera desgaste e ainda corre o risco de pagar imposto duas vezes.
  • Mantenha a habilitação o contrato inteiro. Todo mês eu mando o relatório do SICAF ou as certidões junto da nota. Certidão vencida pode bloquear o pagamento, mesmo com o produto entregue. O órgão não pode pagar quem está devendo imposto.

Se você ainda está montando essa pasta de documentos, o checklist completo está no artigo sobre documentos para licitação.

Passo 5: reajuste, repactuação e reequilíbrio

Essa é a parte que muito empresário, até experiente, deixa passar. A Lei 14.133 protege o lucro do fornecedor: o artigo 124 garante a manutenção das condições efetivas da proposta. Existem três instrumentos, e eles podem correr em paralelo no mesmo contrato:

  • Reajuste: já vem no contrato, por índice (IPCA ou IGP-M). Fez 12 meses, você pede. Às vezes o processo demora dois ou três meses, e aí eles pagam o retroativo.
  • Repactuação: vale quando tem mão de obra dedicada. A convenção coletiva subiu o salário da categoria? Você comprova e pede.
  • Reequilíbrio econômico-financeiro: pra fato imprevisível, ou previsível com consequência que ninguém conseguia calcular. Você prova com planilha de antes e depois.

Na pandemia eu pedi reequilíbrio nos meus contratos de locação. Provei com a tabela FIPE: o mesmo carro que custava R$ 40 mil tinha ido pra R$ 70 mil. Não tinha como fornecer pelo mesmo preço.

Eu controlo tudo numa planilha: data de vencimento de cada contrato, índice de reajuste, convenção coletiva envolvida. No nono mês de todo contrato eu já falo com o gestor sobre a renovação. Três meses de antecedência dão tempo de todo mundo se organizar, e o reajuste entra junto.

O que fazer quando o órgão atrasa

Atraso existe. Calote, em contrato com empenho, é praticamente impossível. São coisas diferentes.

A lei diz que, depois de 60 dias de atraso, você pode interromper o fornecimento e até rescindir o contrato. O meu passo a passo de cobrança:

  1. Uns 10 dias antes de completar os 60, envio um e-mail formal: "se a fatura tal não for paga até o dia tal, o fornecimento será interrompido".
  2. Se não resolver, interrompo e notifico o tribunal de contas competente. Quando tenho dúvida de qual é, notifico todos.
  3. Só então, se for o caso, parto pra rescisão.

Na prática, muito servidor resolve na hora em que percebe que você conhece o processo. Eu nunca precisei rescindir. Já tive um contrato estadual que só pagava perto do limite, e pagou todas. E já fiquei sete meses sem receber de um órgão em auditoria. Foi escolha minha: eu tinha caixa e conhecia as pessoas de lá há anos. Quando a auditoria acabou, pagaram tudo de uma vez.

Isso mostra outra regra: trate o servidor como parceiro. Você vai conviver com aquele fiscal por anos. Quanto mais você facilita a vida dele, melhor anda o seu contrato.

Erros comuns na gestão de contratos públicos

  • Não ler o contrato inteiro. Pra disputar você lê o procedimento. Ganhou? Agora lê tudo.
  • Entregar antes do empenho. Tira a sua garantia de receber.
  • Emitir nota sem o atesto do fiscal. Nota cancelada, desgaste e risco de imposto em dobro.
  • Deixar certidão vencer no meio do contrato. Trava o pagamento.
  • Deixar notificação sem resposta. Penalidade (multa, impedimento de licitar, declaração de inidoneidade) está no artigo 156 da lei. Respondeu dentro do prazo, com fatos e documentos, e com uma solução, a conversa é outra.
  • Prometer prazo apertado. Eu dou uma data folgada e entrego antes. Se o pneu furar no dia, não viro inadimplente.

No L360 a gestão de contratos tem material próprio, com o guia prático e o modelo de notificação de cobrança pronto, e os casos reais dos alunos são resolvidos nos encontros ao vivo. Se você ainda está na fase de disputar, comece entendendo como ganhar licitação sem sangrar a margem.

Perguntas frequentes

Posso entregar o produto antes de receber o empenho?

Não é recomendado. Os prazos do contrato só começam a contar a partir do empenho ou da autorização de fornecimento, e é ele que garante que o dinheiro está reservado. Entregar antes, no informal, tira a sua garantia de receber.

Quem é o fiscal do contrato e por que ele importa?

É o servidor do órgão que confere e atesta a sua entrega. Sem o atesto dele você não emite nota em contrato de valor variável e não recebe. Mantenha tudo registrado por e-mail e trate ele como parceiro.

O que acontece se uma certidão vencer durante o contrato?

O órgão pode segurar o seu pagamento até você regularizar, mesmo com o produto entregue. Por isso eu emito as certidões todo mês e mando junto da nota.

Quanto tempo o governo pode atrasar o pagamento?

O prazo legal é de até 30 dias depois da nota fiscal. Passados 60 dias de atraso, a lei permite interromper o fornecimento e rescindir o contrato, sempre com notificação formal por escrito.

Dá pra aumentar o preço do contrato depois de assinado?

Dá, pelos instrumentos certos: reajuste por índice depois de 12 meses, repactuação quando envolve mão de obra e reequilíbrio econômico-financeiro quando acontece algo imprevisível. Todos precisam de pedido formal e, nos dois últimos, de prova com documentos.

Próximo passo
Quer ver isso aplicado no seu negócio?

Na reunião ao vivo e gratuita eu junto tudo num passo a passo: onde estão as compras que quase ninguém disputa, o que o governo exige e como fazer a primeira proposta. Me chama pra saber quando é a próxima.

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Geraldo Junior
Geraldo Junior

Vende para o governo desde 2014. O primeiro contrato foi aluguel de carros pro Corpo de Bombeiros de Alagoas, renovado por 10 anos. Hoje ensina pequenas empresas e MEIs a vender para prefeituras, estados e órgãos federais no L360.