Como ganhar licitação: por que o quarto lugar também leva o contrato
Como ganhar licitação sem sangrar a margem: por que o primeiro colocado cai, a regra dos 50% e o passo a passo pra ser chamado mesmo ficando atrás.
Neste artigo
Como ganhar licitação? Não é dando o menor preço a qualquer custo. Quem fica em primeiro na fase de lances muitas vezes cai depois, na proposta ou na documentação, e o contrato vai pra quem está atrás com tudo certo. Ganha licitação quem tem proposta e documento em ordem, preço com margem e paciência pra acompanhar a disputa até o fim.
Eu falo isso com propriedade. A maioria dos pregões que eu ganho com a minha própria empresa, eu não termino em primeiro. Fico em terceiro, quarto. E na habilitação as empresas da frente vão sendo eliminadas.
Licitação não é leilão ao contrário
Quem olha de fora acha que é assim: o governo quer comprar, todo mundo baixa o preço, leva quem chegar mais embaixo. Não é bem assim.
A licitação existe pra o órgão achar a proposta mais vantajosa. E mais vantajosa não quer dizer mais barata. Pensa num notebook barato que dura 6 meses contra um que dura 5 anos. Qual saiu mais caro pro dinheiro público?
Além do produto, o órgão precisa de uma empresa que consiga entregar. Com certidão em dia, com condição financeira pra aguentar o contrato. Por isso preço sozinho não fecha negócio.
E tem mais: a lei protege o lucro do fornecedor. Ela não quer que você venda no prejuízo, porque empresa que vende no prejuízo não entrega.
Por que o primeiro colocado cai
Existem duas formas de sair da disputa depois de "ganhar" nos lances. Guarda a diferença:
- Desclassificado: caiu na proposta. O produto ofertado não bate com a especificação do edital, faltou marca e modelo, ou o preço ficou baixo demais pra ser verdade.
- Inabilitado: passou na proposta, mas caiu na documentação. Certidão faltando, balanço feito de qualquer jeito, atestado que não comprova o que o edital pede, prazo de envio perdido.
É o famoso "ganha, mas não leva". Ganha a fase de lances, não assina o contrato, não recebe o dinheiro. E isso é muito, muito comum. Toda licitação vai ter empresa desclassificada ou inabilitada. Até empresa grande erra coisa básica.
Um exemplo que apareceu numa aula: um concorrente ofertou um produto de uns mil reais num item em que a especificação pedia algo de outro nível, muito mais caro. Ele não percebeu o detalhe e foi eliminado. É nos detalhezinhos que a gente ganha dinheiro.
Olha como eu explico isso numa das aulas:
Proposta mais vantajosa não é a mais barata
Ficou em quarto e levou R$ 156 mil
Essa história é de um aluno. Pregão pro Senado: cafeteiras industriais de 3 e de 5 litros. Ele ficou em quarto lugar num item e em quinto no outro. O pregoeiro foi desclassificando quem estava na frente, um por um. Na quinta-feira caiu o último. Na sexta, chamaram ele pra mandar a proposta. Contrato de cerca de R$ 156 mil.
Não é caso isolado. O Reinaldo, que começou do zero em Natal, ficou em 16º lugar numa disputa de paletes e levou, porque vários da frente foram desclassificados. Vendeu a R$ 270 a unidade, com custo perto de R$ 198. E eu mesmo já fiquei 11 dias acompanhando um pregão em que estava em quarto, até me chamarem.
Licitação a gente ganha no acompanhamento das propostas e na habilitação.
Como ganhar licitação: o passo a passo
Anota aí. É o que eu faço e o que eu ensino:
- Escolha um edital do seu tamanho. Valor que cabe no seu caixa, região onde o frete não come o lucro, produto que você conhece. Pregão de R$ 300 mil no primeiro mês não é pra você ainda.
- Comece a leitura pelo termo de referência. Geralmente é o anexo 1 do edital. É lá que está a especificação do produto e os prazos. Especificação e prazo são as duas maiores armadilhas.
- Deixe a documentação pronta antes. Certidões, contrato social ou CCMEI, balanço e atestado quando o edital pedir. Quando o pregoeiro te chamar, em geral você tem umas 2 horas pra enviar. Não dá tempo de correr atrás de nada.
- Precifique antes de entrar. Custo, imposto, frete, margem. E defina o seu piso: o valor de onde você não desce de jeito nenhum. Isso eu detalho em como precificar para licitação.
- Entre com proposta inicial alta. Nunca entre já com o seu preço mínimo. Isso só puxa os concorrentes pra baixo junto com você.
- Na fase de lances, não vá na onda do agressivo. Quando aparece um concorrente baixando demais, deixa ele lá. Tenta ficar no bolo: segundo, terceiro. Muitas vezes esse agressivo nem tem condição de entregar.
- Use a vantagem de pequena empresa. Se você é MEI, ME ou EPP, tem o empate ficto e outras regras a seu favor. Eu explico todas em vantagens da ME e EPP na licitação.
- Acompanhe até o final. Baixa o aplicativo do portal, olha o chat, confere o e-mail. Na minha conta, uns 90% das empresas não acompanham o pregão ou a dispensa até o fim. É aí que você passa na frente.
- Fique atento à fase de recurso. Quando o pregoeiro declara o vencedor, abre uma janela curta, de 10 a 30 minutos, pra registrar a intenção de recurso. Depois você tem 3 dias úteis pra mandar o recurso completo. O passo a passo está em recurso em licitação.
A regra dos 50%: preço baixo demais também perde
Se o seu preço de produto fica abaixo da metade do valor estimado pelo órgão, a lei presume que ele é inexequível. Ou seja: você não conseguiria entregar por aquilo. O pregoeiro pode desclassificar ou te pedir uma planilha de custos provando que dá.
Então sangrar a margem pra ficar em primeiro, além de não te dar lucro, pode nem te dar o contrato.
O jogo é do lucro. Quanto menos você puder baixar, melhor.
O que ninguém te conta sobre ganhar licitação
Ninguém ganha todas. Tem disputa que você perde no preço, tem disputa que você perde por um detalhe que não viu. O que faz o contrato sair é volume. A meta que eu passo é disputar de 8 a 10 pregões por mês pra sair pelo menos um contrato. Eu falo mais disso quando mostro a rotina de licitações.
Pregão difícil é pregão bom. Quanto mais fácil o edital, mais gente vai estar lá brigando por centavo. Onde a especificação é mais técnica e a documentação é mais pesada, aparece menos gente. Menos gente, mais margem.
Mas técnico demais sem conhecer é cilada. Numa disputa de computador cheia de especificação detalhada, eu, com toda a experiência, fiquei em sexto. Se você não domina a área, vai de produto mais fechado, onde é fácil conferir se o seu atende.
O ego custa caro.
A gente tá ali pra ganhar dinheiro e não só pra ganhar um pregão pelo ego.
Erros comuns de quem está começando
- Olhar só o valor estimado e esquecer de ler o edital inteiro.
- Entrar no lance sem ter o preço mínimo definido.
- Baixar preço no calor da disputa e depois descobrir que o frete comeu o lucro.
- Desistir de acompanhar quando vê que não ficou em primeiro.
- Perder o prazo de envio dos documentos por não ter nada separado.
- Não pedir prorrogação quando precisa. Se o prazo está apertado, pede antes de vencer: pregoeiro costuma aceitar.
Sua tarefa de hoje
Abre um pregão que já terminou, do seu ramo, no portal de compras. Olha o resultado e veja em que posição estava a empresa que assinou o contrato. Você vai se surpreender com quantas vezes não foi a primeira.
Perguntas frequentes
Quem ganha a licitação é sempre o mais barato?
Não. Ganha quem tem a proposta mais vantajosa e a documentação correta. É muito comum o primeiro colocado ser desclassificado ou inabilitado e o contrato ir pro terceiro ou quarto.
Qual a diferença entre ser desclassificado e inabilitado?
Desclassificado é quando a proposta não atende o edital, como produto fora da especificação ou preço inexequível. Inabilitado é quando a documentação falha, como certidão, balanço ou atestado.
Preço muito baixo pode ser desclassificado?
Pode. Se o preço de produto fica abaixo da metade do valor estimado pelo órgão, a lei presume que é inexequível e o pregoeiro pode desclassificar ou pedir comprovação de custos.
Quanto tempo eu tenho pra mandar os documentos depois de ganhar os lances?
Em geral, umas 2 horas depois que o pregoeiro te convoca. Alguns editais dão até 24 horas, e dá pra pedir prorrogação antes de o prazo vencer.
Quantos pregões preciso disputar pra ganhar o primeiro?
Não tem número garantido. A meta que eu passo é disputar de 8 a 10 pregões por mês pra sair pelo menos um contrato.
Na reunião ao vivo e gratuita eu junto tudo num passo a passo: onde estão as compras que quase ninguém disputa, o que o governo exige e como fazer a primeira proposta. Me chama pra saber quando é a próxima.
Quero participar da próxima reunião
Vende para o governo desde 2014. O primeiro contrato foi aluguel de carros pro Corpo de Bombeiros de Alagoas, renovado por 10 anos. Hoje ensina pequenas empresas e MEIs a vender para prefeituras, estados e órgãos federais no L360.


